quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

ROBERTA SÁ canta Falsa Baiana


Esses dias tenho visto vídeos da cantora Roberta Sá em especial sambas da década de 1940 gravados por ela num disco de 2004 chamado Sambas e Bossa gosto notadamente da música Falsa Baiana de Ciro Monteiro. Sua interpretação é primorosa porque evidencia um ressurgimento do samba entre os jovens. Sua sensibilidade Pop que é difícil de definir mas se faz sentir em todos da sua geração chegam ao samba pela via da MPB e da Bossa Nova refletindo no momento atual do samba.



O que se percebe na gravação de Roberta Sá é que sua Falsa Baiana é atravessada principalmente por elementos de três tradições: o samba, a MPB/Bossa Nova e, não sei bem em que medida consciente ou inconscientemente, a Música Pop foi introduzida, mas isso fica claro pela maneira com que ela arredonda os saltos da melodia, mudando a entonação, e como ressalta os fins da frase colocando um vibrato leve, usando esse recurso, de uma forma totalmente diferente dos cantores de samba tradicionais.



O que mais gosto de suas apresentações é a tentativa de cantar como os cantores da velha guarda variando a divisão melódica e tentando sugerir leveza, despojamento e até uma certa irreverência. Sua maneira de cantar usando a voz limpa, aproveitando o ar sem forçar demais e no entanto, mantendo homogeneidade e regularidade na intensidade das notas em cada frase, revela com relativa clareza que estão em jogo ali referenciais do que é cantar de forma afastada dos intérpretes tradicionais como: Zeca Pagodinho, Clara Nunes ou Beth Carvalho.




            Tenho especial predileção pela interpretação da Falsa Baiana de Roberta Sá, pelo frescor e novidade que trouxe para a velha composição dos anos 1940. Com ela a composição se mostrou um samba mais corporificado, por outras tradições além de trazer o lastro histórico que dá uma carga simbólica específica a cada uma delas, entrando portanto na própria constituição da canção. Música das boas para ser ouvida sem moderação. 

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

O TRIUNFO DO GERÚNDIO


Esses dias que me ausentei do blog estive pensando que escrever é como fazer a mala. Na falta da palavra exata precisamos empregar muitas; sem saber qual vai ser a roupa certa carregamos uma mala enorme. A roupa certa e a palavra exata proporcionam muita satisfação. É animador poder escrever iniciante em vez de “gente que está começando a aprender”, é reconfortante que num lugar estranho, bem longe das nossas gavetas, nos viramos com um punhado de peças. Mas trabalhar com pouco é arte de craques. Não é casual que sejam os poetas e não os tabeliões, que extraem das palavras o máximo rendimento.



Pensava nisso ao contemplar o triunfo irremediável do gerúndio. A primeira vista uma moda tão passageira e circunscrita quanto “broto”, o gerúndio ultrapassou fronteiras e, pelo tempo que já dura, parece ter vindo para ficar. E, no entanto, é o contrário da síntese e da exatidão: propõe dizer com mais palavras o que se resolvia antes com a brevidade do infinitivo. Fazer, mostrar, telefonar em vez de estar fazendo, estar mostrando, estar telefonando. Qual é o misterioso prazer que essa profusão de palavras proporciona? De onde vem a recompensa para esse esforço contínuo?



Dizem que o hábito surgiu das ligações de telemarketing, se tiver nascido nessa área passou rápido para secretárias, porteiros, recepcionistas, assessores de imprensa, pedagogos... e até você ouviu a sua própria voz pronunciar com assustadora naturalidade “vou estar mandando”. Penso que definitivamente se o gerúndio alcançou assustadora popularidade é porque devia haver, ao menos inicialmente, uma espécie de avidez, de demanda reprimida que ele revelou e satisfaz. Não como a palavra exata que, finalmente encontrada, cessa a aflição da procura e nos devolve o poder de acuidade, nem como a peça de vestuário que aplaca sem maiores complicações a angústia do “com que roupa?”. O desejo que o gerúndio satisfaz é justamente de complicação. Ou do reconhecimento que isso garante.



Possuir palavras, como se sabe, é um privilégio- tanto maior quanto menor for o acesso ao conhecimento. Falar com desenvoltura é um desejo mal satisfeito: palavras e fórmulas são escassas no repertório da maioria. Nossa língua, ou a pouco intimidade com ela, é instrumento da exclusão, e seus rebuscamentos servem ao propósito de multiplicar as barreiras (escrevemos em português destinatário e remetente quando em inglês bastam to e from; precisamos de excelentíssimo, ilustríssimo, e de digníssimo senhor quando em inglês dear sir resolve tudo). O poder fala difícil, falar difícil é um poder e todo mundo que se sentir um pouquinho poderoso. Por isso, as palavras simples tornam-se suspeitas. Basta ver o que aconteceu com os verbos pôr e botar. Aos poucos as galinhas passaram a colocar ovos, os carnavalescos a colocar o bloco na rua e o incendiários a colocar fogo.




Mais que ninguém caia na tentação de acreditar que os simples vão enfeitar seu discurso com palavras que façam parecer o que não são. Liquidação de loja cara, no Brasil, é sale, ou até, vendita promozionale. Com, afinal, quem queremos estar parecendo?

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

O NASCIMENTO DAS ESTRELAS DE CINEMA

Mary Pinckford.
A estrela foi idealizada pelos estudos hollywoodianos porque seria a constituição de sua base econômica, no início do século XX surgiram revistas especializadas que alimentavam a mistificação. Caçadores de talento iam buscar suas presas em bastidores de teatros, numa dessas buscas encontraram a atriz Sara Bernhardt, mas a primeira grande estrela do cinema, reconhecida pela maioria dos estudiosos e críticos do assunto foi mesmo Mary Pinckford.

Gloria Swanson
Mas Theda Bara, Marin Davis, Gloria Swanson, Louise Brooks, marcaram o período de 1918 a 1928. Elas eram lindas e tinham personalidade forte. A estrela remetia a vários arquétipos: a virgem inocente, a glamorosa, a prostituta, a divina, a mulher fatal. Com Rodolfo Valentino as americanas descobriram o latin lover. No dia de sua morte 12 mulheres se suicidaram.

Rodolfo Valentino.
No início dos anos 1920 os filmes eram construídos em torno das estrelas. Fechadas em uma bolha falsamente paradisíaca levavam um vida de caprichos. No início de 1930, o aspecto psicológico da trama narrativa ganhou terreno. As estrelas se adaptaram alterando entre o excepcional e o ordinário. Ao mesmo tempo, o fenômeno de projeção de identificação ficou mais intenso. Com os anos 1940, nota-se mais elasticidade na idade das estrelas. Não era raro chegar ao estrelato com 40 anos quando se era homem. Prova disso foi Clarck Gable e Humphrey Bogart homens maduros.

Clarck Gable.

Nos anos 1950, os estúdios romperam com o sistema de escuderia de atores. A presença de Ingrid Bergman, Ginger Rogers ou Betty Davis, não era muito garantia de sucesso de um filme. Os atores passaram a ser encarregados do seu próprio destino o que os tornava mais vulneráveis. Os supostos suicídios de Judy Garland e Mary Monroe anunciaram o fim do star system. No entanto as estrelas de cinema continuam fascinando e suscitando mistério e fascínio ao longo do tempo.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

O TEMPO DAS GRANDES CATEDRAIS GÓTICAS


            O século XIII foi o período das grandes catedrais nas quais quase todos os campos da arte tinham o seu lugar. O trabalho por esses gigantescos empreendimentos se estendeu por todo o século XIV. No fim do século XII quando o estilo gótico começou a se desenvolver a Europa ainda era um continente de população esparsa e basicamente camponesa onde os principais centros de poder e aprendizagem eram os monastérios e os castelos dos barões.



            A ambição dos bispos de ostentar suas próprias e pungentes catedrais foi o primeiro sinal de orgulho cívico que despertava nas cidades. 150 anos depois esses centros urbanos se tornarão fervilhantes centros comerciais, onde os burgueses se sentiam cada vez mais independentes do poder da Igreja e dos senhores feudais. Até os nobre abandonaram a vida de sombria reclusão em seu mundo fortificado.



            No século XIV os construtores góticos não se contentavam com o estilo das limpas e majestosas catedrais mais antigas. Gostavam de exibir sua pericia na decoração e na complexidade dos rendilhados. O que fico imaginando como que com técnicas tão reduzidas para a época foram capazes de criar edifícios tão imponentes? Acredita-se que usaram fórmulas químicas hoje desaparecidas que deram aos vitrais tonalidades únicas e irreproduzíveis. Suas formas são desenhadas com base em complexos cálculos matemáticos e astronômicos que dão proporções cósmicas ao mutismo religioso.



            O mais interessante nesse mundo místico, poderoso, oponente e silencioso da arquitetura gótica é a incrível resistência das catedrais, as intempéries, aos ataques insidiosos do clima, a violências como bombardeios e a sua elegância inconteste num período em que o mundo parece rumar para uma realidade caótica. Elas continuam de pé e nos emocionando contestando o nosso entendimento de ciência e técnica.

            

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

CARMEN MIRANDA E SUA BAIANA


            A década de 1930, assistiu no Brasil a construção de uma nova identidade nacional, onde elementos das camadas populares foram incorporados a ela. A construção dessa identidade tinha como agente o Estado e diversos elementos sociais. Carmen Miranda foi o maior ídolo popular da época e a cantora mais famosa daqueles tempos, chegando a representar o Brasil no exterior.



            O desenvolvimento do rádio como novo meio de comunicação foi fundamental na construção dessa nova identidade. Antes de ser a baiana, sua imagem pública suas canções traziam o modelo de uma mulher bem sucedida, batalhadora, bela, sedutora. Na música as Cantoras do Rádio, essas mulheres eram as matriarcas que uniam o país de norte a sul.



            Carmen em suas canções popularizava a nação e vivenciava as narrativas de suas canções. Resumia a imagem que se queria da capital brasileira: Rio lindo sonho de fadas. Noites sempre estreladas e praias azuis. Rainha branca do samba, em suas canções a natureza era personificada bem como as cidades e as grandes massas populares.



            A baiana foi sua marca mais forte, Em 1939, num momento fortemente influenciado pela aversão estatal à figura do malandro, foi gravada “O que é que a baiana tem”. É um samba típico baiano de Dorival Caymmi, que, além de compositor, também a ajudou a montar o figurino de baiana e participou da gravação da música para o filme “Banana da Terra”.


CM: O que é que a baiana tem?
Coro: O que é que a baiana tem?
CM: Tem torso de seda, tem (tem)
Tem brinco de ouro, tem (tem)
Corrente de ouro tem (tem)
Tem pano da Costa, tem (tem)
Tem bata rendada, tem (tem)
Pulseira de ouro tem (tem)
Tem saia engomada, tem (tem)
Tem sandália enfeitada, tem (tem)
E tem graça como ninguém
Coro: O que é que a baiana tem?
CM: Como ela requebra bem
(...)
Coro: O que é que a baiana tem?
CM: Um rosário de ouro
Uma bolota assim
Ai, quem não tem balangandãs
Não vai no Bonfim
Oi, quem não tem balangandãs
Não vai no Bonfim.



            A cantora mais famosa do Brasil, identificada com o Rio de Janeiro, nessa música passava a se apresentar vestida com os trajes típicos das negras da Bahia. Na verdade, a imagem de baiana construída por Carmen não foi uma cópia fiel das baianas que vendiam comidas em Salvador. Ela selecionou alguns elementos dos trajes dessas baianas e acrescentou outros. Foi algo muito chocante para a época: uma cantora que sempre havia se vestido dentro das tendências da moda urbana do Rio de Janeiro, nesse momento construiu um figurino totalmente distinto. Mais impressionante ainda foi o resultado disso.




            Carmen teve um claro feeling para se tornar “mais brasileira”, ou seja, mais aceita pelo imaginário nacional, a figura da baiana. A baiana, como o próprio nome diz, não deixou de ser uma figura regional, mas as alterações feitas pela cantora deram a ela a possibilidade de, além disso, também ser nacional. Seu papel ultrapassava a bela voz e o requebrado e ajudavam a consolidar a imagem cultural que temos do Brasil.